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sábado, 12 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

cine-rock, 11-03 (sessão zero)

ufal palmeira
sexta
meio-dia



"Longe da estética da miséria – da qual o cinema nacional não consegue se desvencilhar e que tenta nos emocionar, advertindo com certa arrogância para “os problemas sociais” –, o filme de João Moreira Salles nos indica outros caminhos, também reais, para nosso cinema vernáculo. No meio deste ambiente injusto a que nos auto-condenamos a viver, existem belezas, sonhos e êxtases aos que têm o desejo de vivenciá-los sem culpas. Sim, há vidas paralelas que permitem nos humanizar e nos deixar suaves e serenos (e, de vez em quando no escuro de uma sala de cinema, sentimos que nossa alma vai por outros caminhos que não o das armas, da violência e dos escrachos..). Com uma linguagem inédita em nosso cinema, eficiente e aparentemente inatingível, Nelson Freire é um grande passo na construção da cinematografia nacional. Um filme de perfil internacional e que outros públicos (em especial, o europeu) verão com agrado.

Li por aí, numa reportagem, que o João Moreira Salles e o Nelson Freire – enquanto rodavam o filme – pensavam e comentavam que agradariam um público pagante cujo número não passaria de 5 mil espectadores (era um número otimista, para eles). A seu ver, estariam sentados na platéia os mais eruditos e os curtidores de música clássica – enfim, os eleitos. Felizmente os dois se enganaram. O filme ficou em cartaz mais de 6 meses contando com o prazer unânime do público que o assistia. O que é um dado importante, afinal, poucas vezes um filme consegue essa unanimidade de gosto sem ser piegas ou idiotamente básico. O sucesso de público de Nelson Freire nos alimenta a esperança de que um dia teremos outras opções de cinema nacional além do cinema-favela.

Sei que muitos jovens, por exemplo, assistiram e ouviram, graças ao filme, seu primeiro concerto. É que Nelson Freire tem o poder de induzir no público uma espécie de êxtase musical (tanto no conhecedor quanto no iniciante).

* * *

Num lento traveling, quase no inicio, a câmera lentamente vai descobrindo os personagens, Nelson Freire e Martha Argerich ensaiando a quatro mãos a Valsa para Piano de Rachmaninoff, na residência dele em Bruxelas. Nesta sala-de-estar onde cabem apertados dois pianos de cauda, se passa grande parte do filme.

O espectador se delicia com Argerich e Freire na intimidade doméstica: seja nos incansáveis ensaios ou em tarefas engraçadas como procurar uma partitura de Tchaikovsky perdida no meio da bagunça de papeis; ou quando Argerich limpa o teclado com 4711, a clássica água-de-colônia. Nesses detalhes, é que entra a sensibilidade de Moreira Salles, como revelador de pequenos atos do cotidiano que encantam ao espectador...

Vemos no filme um Nelson Freire de poucas palavras e grandes emoções, que aparecem quando fala de sua admiração pelos pianistas de jazz, em especial Errol Garner. Mais adiante, quando recorda Guiomar Novais ou na lembrança da sua professora de piano no Rio, que surge na vida do jovem prodígio com a mesma sorte de quem encontra a última esperança para continuar seus estudos no Brasil. Nise Obino é sua professora-fundamental, a mesma pela qual o jovem Nelson Freire sente uma grande paixão e admiração. Nise inicia a escultura do grande solista de Chopin e Schuman, que anos depois ele continuaria sendo na Europa...

Freire não é só de poucas palavras, é também de poucos amigos: solitário por opção, avesso à exibição fácil, relata noutro momento emocionante em sua eterna amizade com Martha Argerich (a pianista argentina de quem é contemporâneo). Num determinado instante do filme, a já consagrada Argerich diz para o Nelson Freire: “Vai, faz a primeira leitura do El bailecito do Guastavino; você lê melhor do que eu...”

Nas seqüências do solista em concerto podemos ver e sentir a identificação do público com a música e a interpretação em uma cumplicidade lúdica entre concertista e a platéia onde se pode “ouvir o silêncio”. É outro grande momento do filme, que João Moreira Salles consegue fixar brilhantemente: a relação do pianista com seu público quando executa o “seu bis”, a Melodia de Gluck-Sgambati, voando com todas notas – da Sala São Paulo para São Petersburgo, passando pelo Municipal do Rio e indo ao interior de uma catedral gótica na França. Públicos tão diferentes e tão iguais no êxtase ante a verdade musical!

Assim, Nelson Freire entra para a memória do cinema nacional com a certeza de indicar novos caminhos e uma nova linguagem, que nasce de dentro para fora e vai atingindo a todos de forma igualmente encantadora. O filme é um grande momento do cinema brasileiro nestes anos, onde se destaca a ética e a verdade." (Rodolfo Felipe Neder, no digestivocultural)

ponte preta

quarta-feira, 9 de março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

O papa e a morte

DENIS ROSENFIELD

O papa morreu dignamente em seus aposentos apostólicos. A sua agonia foi seguida por milhões de fiéis em todo o mundo, sem que se saiba, ao certo, as condições em que ocorreu a sua morte. Os assuntos do Vaticano são sempre cercados de sigilo.

Indicações, porém, foram dadas de várias doenças que lhe acometeram durante os últimos anos, quando as suas internações hospitalares começaram a ficar freqüentes. A sua saúde foi se deteriorando, embora a sua força o fizesse sair de cada uma dessas situações. Contudo, nessa sua última internação, ele parece ter tido consciência de seria efetivamente a última, restando-lhe a escolha entre a morte hospitalar e a morte em seus aposentos, com as pessoas que lhe eram próximas.

Diante da morte iminente, uma questão se colocou: como deveria ele terminar os seus dias? Deveria ele os tentar prolongar artificialmente graças aos modernos instrumentos científico-tecnológicos? Deveria ele se submeter a essa forma de arbítrio humano? Será ela a vontade de Deus? A forma de encarar a morte e o modo mesmo de morrer tornaram-se questões de extrema atualidade depois do longo sofrimento _15 anos_ de uma americana que vivia vegetativamente. As opiniões mais divergentes e acirradas se fizeram presentes.

Na prolongação artificial da vida, a ação humana se torna uma espécie de árbitro último, pois o processo biológico, por si só, já está esgotado. Sob um registro teológico, poder-se-ia dizer que a vontade de Deus se faz através de um processo que encontra a sua culminação natural na morte. Nessa perspectiva, os esforços humanos de prolongar artificialmente uma vida também poderiam ser considerados atos humanos gratuitos contra a vontade de Deus. Num certo sentido, pode-se ainda dizer que Deus quer o fim de cada um de nós, por termos a finitude como nosso horizonte próprio, por Ele desenhada. Ademais, Ele sinaliza o fim de cada pessoa através de um processo natural único de decadência biológica, que encontra o seu encerramento na falência de um ou vários de nossos órgãos. É lícito, portanto, afirmar que prolongar indefinida e artificialmente a vida de alguém é um ato "contranatura", contra a vontade de Deus, pois a natureza é sua obra.

João Paulo 2º parece ter tido plena consciência dessa confluência entre a liberdade de escolha e a vontade de Deus presente nos processos naturais. A liberdade de escolha está presente no ato de sair de um hospital e a ele decidir não mais voltar, sabedor que era de que seus dias estavam contados. Poderia ter ele ficado no hospital, utilizando-se de todos os recursos tecnológicos à sua disposição, potencializados ainda mais por se tratar do sumo pontífice. Meios não lhe faltariam. O que surpreende, contudo, é a renúncia a tais meios, a consciência de que sua vida terminava e ele entendia isso como sendo a vontade divina. O ato livre opera tendo como contexto a iminência da morte. Essa, por sua vez, é compreendida como a passagem para um outro mundo, como a conseqüência natural, normal, de um processo que chega ao fim. [...] (Folha de São Paulo, 06/04/2005)

A boa morte de João Paulo 2º

MARCELO LEITE

Não fosse este espaço dedicado à ciência e áreas adjacentes, como vida e ambiente, a vontade era de escrever sobre essa constrangedora campanha para "eleger" um papa brasileiro. Diante dela, até ateus se sentem tentados a exclamar: Meu Deus! Já não basta o sentimento de inferioridade por não ter Prêmio Nobel e Oscar, em breve o país poderá também sentir-se menor, possivelmente, por não abocanhar o Vaticano.

É diante da morte de João Paulo 2º, porém, que cabe parar e pensar. De sua vida já se disse tudo e mais um pouco, quando não o seu contrário. Da morte do papa também muito se falou, e uma das reflexões mais interessantes foi proposta quarta-feira na Folha pelo filósofo Denis Lerrer Rosenfield, do qual em geral tem sido mais fácil discordar. Tensionando um pouco seu argumento, seria possível dizer que, ao escolher morrer em seus aposentos, longe da tecnologia hospitalar, o papa terminou oferecendo um manifesto em favor da eutanásia.

Rosenfield escreve que a palavra não é apropriada para o passamento de João Paulo 2º, porque ele se deixou morrer. Ela está associada com a idéia de fazer morrer, como praticava o "Dr. Morte", Jack Kevorkian, condenado a pelo menos dez anos de prisão, em 1999, por participar de suicídios. Se fosse essa a noção predominante de eutanásia, ministrar uma dose letal de drogas para desencadear a morte de alguém, certamente a do papa nada teria a ver com isso.

Não é essa a eutanásia que está na ordem do dia, porém. Não se trata de Jack Kevorkian, mas de Terri Schiavo. Nos casos do papa e de Terri, era possível escolher entre realizar ou não intervenções para prolongar uma vida que, por seus próprios recursos, se extinguiria lentamente. A diferença estaria em que, supõe-se, João Paulo 2º tomou a decisão sobre si mesmo, ou dela participou, enquanto sobre Terri quem decidiu foi o marido.

Obviamente, trata-se de uma diferença enorme. É muito menos questionável, eticamente, uma pessoa decidir sobre a própria morte. Mas, e quando ela não pode fazê-lo, por que seria menos humano, ou menos piedoso, permitir que um ente querido tome a decisão por ela?

No caso Schiavo, conservadores e fundamentalistas cristãos cerraram fileiras em torno dos pais da moça, que queriam prolongar seu estado vegetativo. O argumento por trás da intransigência era que, assim como não competiria a seres humanos interromper a vida de um embrião (uma "pessoa humana", na óptica "pro-life"), tampouco seria permissível interromper a de um moribundo, por mais insustentável que fosse.

Outra forma de encarar a questão, paradoxalmente oposta mas não menos conservadora, é a sugerida no artigo de Rosenfield: caberia aos homens intervir com meios técnicos para tirar de seu curso um processo com desenlace fixado pelo desígnio divino (ou natural)? Quem responder que não, justificando com isso o direito de João Paulo 2º a uma morte piedosa, não deveria escandalizar-se tanto com o direito exercido por Michael Schiavo em nome de Terri. (Folha de São Paulo, 10/04/2005)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

oscar

A Origem

A ideia remonta a Solaris (Tarkovski), em que cientistas dentro de uma estação espacial na órbita do estranho planeta do título têm alucinações e enoluquecem, preferindo ficar com as alucinações (a jovem esposa falecida). A Origem exagerou este aspecto, fazendo com que DiCaprio tenha passado 50 anos junto de sua esposa, presos dentro de um sonho, com sua temporalidade específica.

A pergunta da pílula vermelha de Matrix não se reflete na questão do líquido que tem que ser injetado para provocar o sonho (é apenas sonífero? não há nenhuma outra droga misturada?), o que é uma perda em relação ao primeiro filme, que aliás apelou menos para o romantismo, mas, mesmo assim, é uma surpresa ver Dom acordando.

Amnésia (Cristopher Nolan) já demonstrava que a complexidade do roteiro obedece com bastante facilidade a um princípio único. O filme elabora um estilo de temporalidade de trás-pra-frente, ou seja, embora assistíssemos as cenas se desenvolverem normalmente, a montagem das cenas fora invertida e então víamos algumas vezes as mesmas cenas. Mesmo assim, há uma reviravolta no final.

Por outro lado, o desejo de viver os sonhos conscientemente como inclusive em cenários recorrentes que apenas cada sonhador reconhece, resolve o final de Até o Fim do Mundo (Wim Wenders), em que alguns personagens enlouquecem fascinados e viciados em pequenas maquininhas de vídeo em que tinham gravado seus próprios sonhos. A máquina tinha sido um desenvolvimento daquela que o cientista inventara para que sua esposa, cega, pudesse voltar a enxergar. A heroína apenas se desligou de sua máquina quando acabaram as pilhas.

De resto, a separação entre o corpo e a alma também é belamente explorada em Fale com Ela (Almodóvar), quando Benigno, na prisão-hospício, toma uma overdose de remédios para tentar entrar em coma e se encontrar com sua amada, deitada na cama do hospital há meses, configurando assim uma releitura moderna da temática do amor platônico. Há as alucinações de Uma Mente Brilhante... enfim.

Na Filosofia, Descartes levou longe a ideia de abalar a nossa realidade através do “argumento do sonho”, segundo o qual poderíamos estar sonhando em vez de acordado escrevendo isso aqui. O filme A Origem é, de longe, o mais inteligente, o que requer mais da inteligência do espectador. Filmes que apelam apenas para nossas emoções são hegemônicos, muitas vezes aparentemente construídos sem um pingo de labor de roteiristas que delegam toda a criação do enredo aos especialistas em efeitos especiais. Por isso, sem ter visto a maioria dos filmes concorrentes, torço para A Origem. (LSD)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

bbb / oscar

quem quer assistir o Oscar tem que aguentar antes as propagandas do bbb, e os prêmios vão sendo entregues, comentados por josé wilker e volta os bbbs correndo pra lá e pra cá pra vender uma marca de café.
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agora vai eliminar 2 de uma vez, porque o índice de rejeição do público a todos os personagens do programa 11 desta vez é bem alto.
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a tradutora do oscar está animadíssima na apresentação dos nomes dos mortos, na homenagem póstuma tradicional
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natalie portman, grávida, agradece demais o oscar de atriz (eu só vi o da anette benning, tava torcendo pra ela)
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sandra bullock é legal, mas colin firth não (mas também não assisti o discurso do rei)
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o discurso do rei... não vi ainda... mas pelo agradecimento dos caras deve ser ruim
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a apresentadora trocou as fichas e teve que procurar pra ver a ficha do toy story 3, no resumo ao vivo. e o josé wilker é uma besta.
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a rede social ganhou melhor música (jw não entendeu nada). tem the white stripes logo no comecinho do filme
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duvido que 'o discurso do rei' seja melhor que 'onde os fracos não têm vez' (no domingo maior da globo, após a cerimônia)

benedito nunes

Benedito e Bento, filósofos brasileiros

27/02/2011

Gadafi não controla mais que 15% da Líbia. Morre Moacir Scliar, aos 73 anos, e é homenageado pela presidente Dilma. Morre Benedito Nunes. É assim que talvez eu me lembre desse dia, no futuro. Em meio à Primavera Árabe e no dia em que a literatura nacional perde a boa pena de Scliar, desaparece também um bom filósofo brasileiro, aquele com um eterno rosto de malandro. Um rosto bem diferente dos de tantos outros filósofos, não raro marcados por vincos do sofrimento auto-imposto.

Benedito Nunes, filósofo brasileiro, esteve na mesa e na estante de muitos outros filósofos brasileiros e, enfim, de todo professor de filosofia respeitável. Caso não pelos seus diversos livros sobre Heidegger ou sobre arte, ao menos por um que, durante bom tempo, ficou solitário no que tínhamos de introdutório para os cursos de filosofia contemporânea, o pequeno mas produtivo volume de título A Filosofia Contemporânea (1991). Aliás, esse seu livrinho disse muito do professor e escritor paraense, pois, sendo de leitura sem muitas voltas, imitou o próprio humor de Benedito, também rápido no gatilho. Um humor, aliás, que combinava muito com o de outro filósofo brasileiro de sua geração, também já falecido, Bento Prado Jr.

Tive a oportunidade de estar em conversas com ambos juntos, numa mesma roda, várias vezes. Numa delas, Bento contava para nós dois, Benedito e eu, os motivos pelos quais estava contrariado. Ele dizia: “vim a uma ANPOF e não bebi, e não me deixaram falar, dado que moda agora é a filosofia meio que científica, e aí eu fiquei triste e vim noutra ANPOF e bebi, mas aí não só me deixaram falar como me fizeram falar. Eu falei bêbado, é claro. E então ficaram bravos comigo porque falei bêbado! Bem, na próxima ANPOF não saberei como agir – mas beberei”. Benedito riu e devolveu rápido para Bento: “engane-os todos, na próxima você diz que não vem, venha e não fale senão no lugar que escutam os que sabem escutar, no bar – vamos para lá urgente” E fomos!

Assim era a filosofia. Os cargos estatais eram desprezados por essa geração. Aliás, a própria reunião da ANPOF era uma reunião de amigos, não uma reunião de “produtividade”. E os filósofos liam uns aos outros. Essa geração – da qual eu peguei parte da atuação – viveu realmente para a filosofia, se deliciando em criar um clima de debates de pares na literatura nacional. Mas, após a filosofia ter se tornado “produtiva”, as teses dominaram a escrita e os leitores de colegas desapareceram. Bento foi um dos poucos que continuou lendo os colegas. Foi assim que Giannotti ganhou um crítico que, talvez, ele próprio não tenha sabido tirar proveito. Ele, Bento, sempre que podia, fazia lá a resenha de um livro novo de um colega, entre estes, Giannotti. Mas, essa prática foi desaparecendo mesmo entre os mais velhos. A idéia que vingou foi a mesquinhez: “não falo do colega nada, para não abrir espaço para ele”. Espaço onde? Na imprensa? Na briguinha departamental? Mais ou menos isso. E assim morreu a filosofia. Iniciou-se o que eu tenho chamado de o silêncio de todos contra todos. Isso refletiu nos grupos de discussão nas universidades. Cada grupo virou o grupo do orientador e seus orientandos, e não o grupo de filósofos de todo tipo e idade, como havia ocorrido com a geração de Bento Prado e de Benedito Nunes.

Mas, o fato é que Nunes e Bento tinham uma saudável característica que os diferenciava também de outros mais ou menos próximos deles, ou seja, a ausência de uma formação ligada à igreja ou ao marxismo ou mesmo ao cientificismo, as três grandes linhas de formação da filosofia brasileira de cunho acadêmico. Tendo ficado distantes disso, eles sempre puderam contar piadas desligadas do policiamento do “politicamente correto” e, ao mesmo tempo, serem capazes de promover o mais produtivo politicamente correto que a filosofia jamais conheceu em nossa academia. Eles eram professores que adoravam ver os alunos vencerem cada etapa. Tinham o prazer do convívio com a filosofia. Pensavam grandes teses da metafísica, mas articuladas aos problemas comezinhos, da vida cotidiana. Por isso, ambos, tinham um gosto especial por certo tipo de antropologia inteligente. E quando se tratava de aprender, não titubeavam em ouvir colegas, tentando reformular pontos de vista.

Assim, por conta dessa disposição, Bento podia se acomodar em São Carlos e Benedito podia viver longe do Rio e de São Paulo, na capital paraense. Eles gostavam do grande centro. Mas, sem Internet, eles estavam há muito conectados pelo pensamento do que havia de mais contemporâneo. Como? Ora, tinham a curiosidade do filósofo e a antena ligada para o que havia de bom “lá fora”. Sabiam rir, por isso tinham curiosidade. Não faziam da vida de filósofo a tarefa grotesca de ficar de banca em banca, de concurso em concurso, reprovando aqui e ali os jovens, para limitar as escolhas de um departamento ou outro de filosofia. Viviam soltos. E soltos escreviam. Escreviam quando queriam. Esperavam ter leitores, não alunos somente. Escreviam para algum leitor, não para o CNPq.

Tanto quanto as teses mais centrais que defenderam em filosofia, o que valeu foi que viveram como filósofos. Infelizmente, como já foi o caso de Bento, logo Benedito terá suas homenagens póstumas não por textos e obras como eles gostavam, mas por algum colóquio de filosofia em alguma universidade. Algum colóquio “para fazer currículo” de professores, que talvez não discuta nenhum dos textos mais ácidos que fizeram. Então, eles saberão que morreram. Sorte deles que não poderão saber tudo sobre isso, uma vez que a morte embaça um pouco a percepção do morto.

© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

scliar

Em Os Leopardos de Kafka, Moacyr Scliar desenha um caricato comunista russo atrapalhado, chamado de “Ratinho”, que elabora páginas e páginas de interpretações imbecis sobre um parágrafo de texto de Kafka, o qual chega às suas mãos através de um qüiproquó, rotineiro nas peças de um Martins Pena, por exemplo:

Era complicado, aquele Kafka. Se pudesse, Ratinho pegaria o telefone e se queixaria: “Não entendo o que você escreve, camarada Kafka. Sinto muito, mas não entendo. Talvez o seu texto represente um novo estágio na literatura, um estágio que escapa ao alcance da maioria das pessoas. Mas permita-me perguntar, camarada: o que escapa ao alcance das pessoas – é revolucionário? Veja o meu caso. Não sou um intelectual, sou uma pessoa simples, um judeuzinho de aldeia que acredita na revolução como forma de mudar a sua vida e a vida de sua gente – não tenho direito a textos que me digam alguma coisa, que me transmitam uma mensagem progressista? Judeuzinhos de aldeia também são gente, camarada, também precisam de livros. Faça sua autocrítica e pense neles na próxima vez que escrever algo como este seu Leopardos no Templo”.[1]

Vazado em linguagem coloquial, o clímax do livro de Scliar é atingido quando Ratinho, já no Brasil da Ditadura Militar, é interrogado no Dops por um delegado de proverbial ignorância:

- Os agentes acharam um documento com ele, um documento escrito em alemão e assinado por um tal de Kafka. Este documento aqui.

Mostrou a Ratinho o texto de Kafka.

- Tu sabes quem é esse cara?

- Sei – disse Ratinho. – É um escritor. Já morreu, mas eu o conheci quando morava na Europa. Ele mesmo me deu esse texto.

- Um escritor? – O delegado, ainda desconfiado. – Nunca ouvi falar nesse escritor.

Uma idéia lhe ocorreu:

- Espera um pouco. Nós temos um investigador que é metido a literato. Vamos ver se ele sabe alguma coisa.

[...]

- Me diz uma coisa, Ratinho. A gente se conhece há muito tempo, eu sei que tu lês muito. Tu gostas desse tipo de escrito?

- Não – disse o Ratinho. – Acho uma merda.

- Não é? – O delegado, triunfante. – Não é mesmo uma merda, um troço incompreensível? Leopardos no templo... Quem é que quer saber de leopardos no templo? Isso aí não tem pé nem cabeça. Para mim, não passa de uma bobagem, de uma coisa maluca. Queres saber de uma coisa, Ratinho? Que se fodam, esses leopardos no templo.[2]

O texto em questão, os “Leopardos no Templo”, tratava-se de um original – evidentemente apócrifo, porque escrito pelo próprio Scliar – datilografado por Kafka, e por ele assinado, que acabou parando nas mãos do protagonista Ratinho, e com ele ficou durante algumas décadas. Valeria “pelo menos oito mil e quinhentos dólares”[3], segundo Ratinho, na época, em 1964. Para além da lembrança do valor do papel, e escudado por uma de tantas explicações didáticas contidas no livro, o leitor saberá também que “Kafka destruía quase sempre todos os seus escritos. É por isso que esse texto é uma raridade – e vale o que vale”[4].

Mais uma vez cristaliza-se a prática de atribuir determinado texto a um autor que não o escreveu, procedimento que remonta a O Nome da Rosa – assim como o destino desse pedaço de papel, que não é grandiosamente consumido por um incêndio em alguma biblioteca monumental, pois a ação se passa no Dops, mas, muito mais prosaicamente, é rasgado em pedacinhos pelo delegado e jogado no cesto do lixo, já que Ratinho mesmo dissera e repetira que era “uma merda”[5].

(trecho de minha tese de doutorado, defendida em 2006.)

[1] SCLIAR, 2000, p.54.

[2] SCLIAR, 2000, pp.111s.

[3] SCLIAR, 2000, p.104.

[4] SCLIAR, 2000, p.105.

[5] SCLIAR, 2000, p.113.

robin hoods

26/02/2011 - 23h38

Dez pessoas morrem em operação policial na Bahia

Especial para o UOL Notícias
Em Salvador

Dez pessoas suspeitas de integrarem uma quadrilha de assaltantes de bancos e estabelecimentos comerciais foram mortas pela polícia na tarde deste sábado (26), em Lauro de Freitas (região metropolitana de Salvador). O grupo atuava principalmente no interior da Bahia. Segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública), dois policiais do COE (Comando de Operações Especiais) ficaram feridos na ação.

A polícia informou que as dez pessoas (nove homens e uma mulher) haviam alugado uma casa em Lauro de Freitas e planejavam assaltar dois supermercados do município nesta tarde. Por volta das 15h, os policiais cercaram a casa e pediram para os suspeitos saírem.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, o grupo reagiu e houve troca de tiros. Na casa onde ocorreram as dez mortes foram encontrados, segundo a polícia, um fuzil, duas metralhadoras e pistolas. O grupo também é suspeito de ter assaltado uma empresa de transportes de valores em novembro de 2009 - na época, 12 homens fortemente armados levaram R$ 16 milhões.

O grupo também é suspeito de ter praticado assaltos a agências bancárias no interior. Somente este ano, de acordo com a Polícia Civil, aconteceram 12 assaltos, todos com características semelhantes: grupos fortemente armados invadem os municípios, saqueiam os bancos e caixas eletrônicos e fogem em carros roubados.

O último assalto aconteceu em Condeúba na sexta-feira (25). Doze homens armados, usando máscaras de monstros, assaltaram as duas agências da cidade, uma do Bradesco e a outra do banco do Brasil. Na saída, os assaltantes jogaram sacos de dinheiro nas ruas e gritaram que eram seguidores de Robin Hood, personagem inglês que rouba os ricos para ajudar os pobres.

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/02/26/dez-pessoas-morrem-em-operacao-policial-na-bahia.jhtm