
avaliação do prof. Marcos Müller, no segundo semestre de curso.
“É o que me disponho a fazer, Íon, para explicar-te (apophainómenos) o que me parece ser a causa do que dizes. O dom de falares com facilidade a respeito de Homero, conforme concluí há pouco, não é efeito de arte (techné), porém resulta de uma força divina que te agita, semelhante (hósper) à força da pedra que Eurípides denomina magnética e que é mais conhecida (hoi polloi) como pedra de Héracles. Porque essa pedra não somente tem o poder de atrair anéis de ferro, como comunica a todos eles a mesma propriedade, deixando-os capazes de atuar como a própria pedra e de atrair outros anéis, a ponto de, por vezes, formar-se uma cadeia longa de anéis e de pedaços de ferro, pendentes uns dos outros; e todos tiram essa força da pedra. Do mesmo modo (houtó), as Musas deixam os homens inspirados (entheous), comunicando-se o entusiasmo destes a outras pessoas, que passam a formar cadeias de inspirados (enthousiazónton). Porque os verdadeiros poetas, os criadores das antigas epopéias (no original, hoi agathoi), não compuseram seus belos poemas como técnicos (ouk ek technes), porém como inspirados e possuídos (katexomenoi), o mesmo acontecendo com os bons poetas líricos. Iguais (hósper) nesse particular aos coribantes, que só dançam quando estão fora do juízo (ouk emphrones), do mesmo modo que os poetas líricos ficam fora de si próprios (ouk emphrones) ao comporem seus poemas; quando saturados de harmonia e de ritmo, mostram-se tomados de furor igual ao das Bacantes (hósper hai bakkhai), que só no estado de embriaguez (katexomenai) característica colhem dos rios leite e mel, deixando de fazê-lo quando recuperam o juízo. O mesmo se dá com a alma do poeta lírico, como eles próprios o relatam. Dizem-nos os poetas, justamente, que é de certas fontes de mel dos jardins e vergéis das Musas que eles nos trazem suas canções, tal como as abelhas, adejando daqui para ali do mesmo modo (houtó) que elas. E só dizem a verdade. Porque o poeta é um ser alado e sagrado (pténon kai hieron), todo leveza, e somente capaz de compor quando saturado de deus e fora do juízo, e no ponto, até, em que perde de todo o senso (ho nous méketi en autó ené). Enquanto não atinge esse estado, qualquer pessoa é incapaz de compor versos ou de vaticinar (poiein kai khrésmódein). Porque não é por meio da arte que dizem tantas e tão belas coisas sobre determinados assuntos, como se dá contigo em relação a Homero. É por inspiração divina, exclusivamente, que cada um faz tão bem o que faz, conforme a Musa o incita: ditirambos, panegíricos, danças corais, epopéias ou iambos, revelando-se todos eles medíocres nos demais gêneros, pois não falam por meio da arte, mas por uma força divina. Se a arte os deixasse em condições de falar bem sobre determinado gênero, do mesmo modo se expressariam com relação aos demais. Essa a razão de utilizar-se apenas deles o deus como ministro, como o faz com os adivinhos e os divinos profetas (tois mantesi tois theiois), para que os ouvintes nos capacitemos de que não são eles os que nos contam tantas coisas miríficas, visto se acharem privados da razão (hois nous mé parestin), mas o próprio deus que conversa conosco por intermédio deles (all’ ho theos autos estin ho legón).”[1]
[1] PLATÃO, Íon, 533c9-534d4
ASSALTO
PERSONAGENS
José Maria Maia - 33 anos, cabelos e olhos escuros, barba bem-aparada, estatura média, corretor de seguros, bem de vida.
Sílvia Maia - 29 anos, cabelos pretos, lisos, na altura da nuca, olhos verdes, pele clara, dona-de-casa, “sempre quieta, sempre alerta”, nas palavras de seu marido Zemaria.
Pedro Maia - três anos mais novo que seu irmão, foi seu rival na disputa por Sílvia. Sua cabeleira negra é vasta e rebelde; seu corpo, atlético. Mulherengo, trocista, sempre acompanhado de um copo e um cigarro. É formado em arquitetura, mas sua paixão é o futebol.
D. Angélica Rebouças - Carioca da Tijuca, mora com a filha Sílvia desde que enviuvou, há um ano e meio. Cabelos brancos, como os olhos, vítimas de catarata. Surda. Não esconde a preferência, entre os irmãos, por Pedro.
Beth Vieira - amiga de infância de Sílvia, não é muito bonita, mas é sexy. Já namorou Pedro. Loura oxigenada, tão falante quanto fútil. Tem muito carinho pela amiga, por quem acredita estar apaixonada.
Maria do Carmo - diarista dos Maia. Mulatinha de 18 anos, muito vaidosa, vive se engraçando com Pedro. Tem uma filha de dois anos que deixa na creche antes de ir para o trabalho.
Esmeralda - empregada do apartamento vizinho, amiga de Maria do Carmo.
Bento e Glória - os assaltantes.
ATO ÚNICO
CENA ÚNICA - Sala do apartamento dos Maia, na Haddock Lobo, São Paulo. Duas e meia da tarde de sábado. Esmeralda está na porta que dá para a cozinha esperando Maria do Carmo acabar de tirar a louça do almoço. No centro, de costas, a televisão está ligada num programa esportivo, com o volume alto. À direita, Zemaria, abraçado a Sílvia, está conversando animadamente com Pedro sobre a final do campeonato, marcada para as quatro. Beth insiste com D. Angélica em levá-la ao cabeleireiro.
Zemaria - Será o jogo da década, talvez do século! Tenho certeza de que vamos nos lembrar desta tarde por muito tempo. Ainda bem que o Carlão foi expulso semana passada...
Pedro - E você acha que ele não vai jogar, que o patrocinador não vai meter o dedinho? Já deve ter metido a mão inteira mesmo...
D. Angélica - Mas minha filha, estou muito velha para isso. De quê adiantaria? Eu não enxergo nada mesmo. Deixe que não demora muito receberei minha última maquiagem...
Beth - (gritando) Não diga isso, D. Angélica! A senhora tem muito tempo pela frente. Ainda verá o homem pisar em Marte, eu garanto. Parece que os americanos já estão construindo um foguete...
Esmeralda - Vamo cum isso minina. Taca logo tudo isso drentro da máquina si não agente chega atrasada!
Maria do Carmo - Tô acabando, tô acabando, calma, a gente já vai. E é bom chegar atrasada pra deixá aqueles bandido esperano, cum fome...
(Ouve-se uma batida seca, mas forte, na porta. Maria do Carmo olha através do olho mágico e abre um pouco a porta.)
Maria do Carmo - Pois não?
Bento - (fora da cena) Por favor, senhorita. Nós somos da Igreja Evangélica Paz e Amor e...
Maria do Carmo - Se veio vender livrinho, pode dar meia-volta. Aqui ninguém compra nada.
Bento (ainda fora de cena) - Posso falar com o dono da casa?
Maria do Carmo - Ele vai te passá um isculacho... Seu Zemaria! Tem um homi aqui querendo falar com o senhor um negócio duma igreja...
Pedro - Deixa que eu vou. Em um minuto haverá mais um ateu no mundo.
( Pedro vai até a porta e ao olhar para fora fica todo contente. Cumprimenta o casal lá fora, convidando-os a entrar.)
(Entram abraçados a Pedro, Glória e Bento, este vestindo a camisa do Juventus.)
Pedro - Aí, aí!! É um presságio, um bom agouro, um milagre! É hoje, é hoje que a gente desencanta! Vou pegar uma cerveja pra vocês.
Bento - Hmmm. Não precisa dizer nada. O senhor é juventino também.
Pedro - Desde o útero, melhor, desde a pica de meu pai, com o perdão das senhoras.
(Maria do Carmo dá dois copos ao casal e Pedro começa a enchê-los.)
Pedro - Mas a quê devemos a graça desta visita? Quem são vocês, campeões?
Glória - O caso é o seguinte: nós não viemos aqui pra falar de futebol, beber cerveja, nem porra nenhuma! A gente veio pra roubar, sacou? Roubar! (Tira um revólver da bolsa e aponta na direção de todos, inclusive de Bento.)
Bento - (Para Glória) Sai pra lá! Aponta isso pra eles! (Para todos) É isso aí! Dane-se o Juventus! O que a gente quer é o dinheiro, tá entendendo, o dinheiro. E vamos logo com isso que tá quase na hora do jogo. (Bebe um gole de cerveja.)
Zemaria - Deve ser brincadeira! Vocês não vieram aqui, com a camisa do meu time, pra me assaltar! Não hoje! Senta aí que o jogo já vai começar.
Beth - Já sei! Vocês são amigos do Pedro e querem tirar uma com a nossa cara. Que piadista...
Glória - Parece que vocês não estão entendendo. (Mostra o revólver) Isso aqui não é de brincadeira, não. Eu passo fogo, tá me entendendo, eu passo fogo! Vocês duas aí! (Aponta para as empregadas) No sofá! E quietinhas, senão mando bala. O senhor aí! (Para Pedro) Onde é o cofre?
Pedro - Desculpem-me. A casa é dele. (Aponta Zemaria)
Glória - Então vai sentando aí se não quer levar chumbo. (Pedro obedece) (Para Zemaria) Então? Eu não vou perguntar de novo...
Beth - (Para Pedro) Cada uma que você me arruma... Quem são?
(Pedro não responde)
Beth - (Insinuando-se para Bento, que bebe mais um gole) De onde vocês conhecem o Pedro? Senta aqui comigo, o jogo já vai começar...
Pedro - Beth, eu nunca vi esses dois...
Bento - Que horas são?
Beth - Vinte pras quatro...
Glória - (Encosta a arma na cabeça de D. Angélica) Vou contar até três. A primeira vai ser a velha. E eu não tô brincando, não. Um, dois...
Zemaria - (reprime um sorriso) Calma! Calma! Não precisa matar ninguém, nem mesmo a velha. Nós não temos cofre, usamos cartão de crédito. Não temos nada, podem procurar.
Sílvia - Olhem! Eu tenho um relógio, podem levar.
Zemaria - Peraí, Sil! Que negócio é esse? Não é porque esse cara torce pro Juventus que...
Bento - (pega o relógio e vê a hora) Será que o Carlão joga?
Zemaria - Se jogar é marmelada, eu quebro tudo! O cara é um assassino!
Glória - Assassina serei eu se vocês continuarem com isso!
Bento - Olha, amor. Por que a gente não deixa o assalto para depois do jogo. A gente assiste aqui com eles, depois assalta e vai embora.
Zemaria - Isso! E com o caneco na mão! (Abraça Bento)
(Glória aponta o revólver para a televisão)
Zemaria e Bento - Nããão!!
Beth - (Aproxima-se de Sílvia e põe-lhe a mão no joelho) Você está com medo? Chega aqui mais perto de mim. (Do outro lado Pedro senta mais perto de Sílvia e também põe a mão em seu joelho)
Sílvia - Parem com isso! (Tira as duas mãos de seus joelhos) Eu não estou com medo! Olhem! O jogo começou.
(Todo mundo se vira para a televisão)
Esmeralda - (Para Maria do Carmo) Que jogo é esse hein? Que assalto mais demorado! (Para Glória) Ô moça! Eu posso ir embora? Eu não tenho nada comigo, não moro aqui, não gosto de futebol...
Maria do Carmo - Eu também. Preciso pegá minha filhinha na creche, meu namorado tá mi esperano. Afinal, já deu minha hora faiz tempo!
Bento - Silêncio!!! Eu quero ver o jogo! E meu copo está vazio.
Maria do Carmo - Eu num vô pegá nada. Já deu minha hora mesmo.
Zemaria - Sil! Vai buscar mais uma cerveja pra gente.
Glória - Não! Ela não. Vai o grandão aí, que é meio bobo. (Pedro se levanta) Mas cuidado, hein! Sem gracinha que eu tô de olho! (Pedro sai e volta com a garrafa. Vai colocar no copo de Glória. Só aí ela percebe que ainda está com o copo cheio na mão.) (Glória atira o copo no chão. Todos se voltam para ela, menos Bento.)
Bento - (Vibrando com a tv.) Vai, vai, vai, vai, droga! Burro! Idiota!
Pedro - (Baixinho.) Desculpe.
Zemaria - Mas como pode o bandido do Marcão estar jogando?
Bento - É uma roubalheira só! Time grande é foda! É uma luta de Davi contra Golias.
(Glória dá um tiro para cima. Pedro derruba o copo. Maria do Carmo começa a rezar.)
D.Angélica - Foi gol?
Sílvia - (Para Glória.) Calma. Você está nervosa demais. Vou pegar um pouco de água. Sente-se aqui no meu lugar...
Glória - (Lamentando-se.) Maldito hospício em que vim cair. (Senta-se. Pedro se afasta o mais possível. Beth se aproxima um pouco, olhando o rosto da ladra.)
Beth - (Para Glória.) É, ela tem razão. Calma que daqui a pouco o jogo acaba e... (Põe a mão no joelho de Glória.)
(Glória olha assustada a mão que acaricia seu joelho. Levanta-se num pulo e, tremendo, vira a arma na direção da cabeça de Beth. Dá, desesperada, um tiro que pega na parede, muito longe.)
D.Angélica - Outro?
(Sílvia dá um copo com água para Glória. Esta bebe num gole só e atira o copo longe.)
Glória - Mas o que eu estou fazendo? Fiquei louca também? Daqui a pouco pergunto quanto está o jogo. (Olha para Bento e Zemaria, ainda em frente da tv, quase interessada. Senta-se de novo no sofá, leva a mão com a arma à cabeça.) Não estou me sentindo muito... (Desmaia em cima de Pedro, que levanta com um grito, jogando Glória no chão. Rapidamente, Sílvia pega o revólver e mira em Bento, chamando-o. Ele demora um pouco para se virar.)
Sílvia - Fora! Carregue essa maluca! Fora os dois! Fora de minha casa!
Bento - Minha Glória! Você matou minha Glória!
Zemaria - Pst!
Bento - (Para Zemaria) Que foi? Aconteceu alguma coisa?
(Glória dá três tiros.)
D.Angélica - He, que é goleada!
(A televisão começa a tocar o hino do Juventus. Zemaria e Bento se abraçam emocionados e cantam junto. Pedro arrisca se aproximar e logo cai na festa também. Beth se ajoelha perto de Glória e passa a mão em seus cabelos. As duas empregadas saem de fininho. Sílvia, com a arma ainda na mão, chora desconsolada no colo de sua mãe.)
[escrevi em 1998, lsd]

O professor Cavalcante era formado em Letras, e dava, com meia dúzia de ses colegas, as principais aulas do curso de Filosofia da Unicamp, desde seu início, em 1988. Ele não pedia mais que isso como avaliação: uma página de texto, traduzido diretamente do grego, no segundo período de curso. Ele corrigiu essa página, e na seguinte encontrou tantos defeitos que deve ter me aprovado (provavelmente com 6,0 - a página de rosto eu perdi, mas eu sempre tirava 6,0 com ele) por ter feito apenas o trecho que ele havia determinado na semana anterior. Nós não utilizávamos as traduções para o português, mas havia a de carlos alberto nunes e da universidade federal do pará. Ele nunca pedira para ler o que íamos, individualmente ou em grupos de estudo, fazendo. Acompanhava-nos à distância, nossa atenção, nossas perguntas em classe, nossa freqüência, toda semana.
Não havia Diário de Classe, caderneta, registro de freqüência. Acho que na primeira aula ele levou a listagem dos alunos, para brincar com os nomes dos alunos e suas etimologias. Nunca mais se referiu a qualquer um de nós diretamente pelo nome, durante o curso, exceto a um ou outro, que mereciam dele essa distinção e louvor.
Entre o primeiro e o segundo períodos, mudou a forma de ler o banquete: na primeira, falava de pé, movimentando-se no fosso do anfiteatro do IFCH, os textos (as traduções em português - a dele, nos pensadores - e o texto original). Ele falava sem segurar nenhum papel, andando de um lado para o outro do anfiteatro, dominando a platéia sempre atentíssima como era de ser devido ao respeito que seu saber e sua barba branca de ‘barbapapa’, como diria marcelo, emanavam, e, por outro lado, dé, incomodando quem sentava nas primeiras fileiras que pareciam estar acompanhando uma partida de tênis.
Numa das vezes em que estive a sós com ele, foi porque suas aulas eram na sexta de manhã cedo, a primeira, senão a única aula quase da manhã no campus (sexta era um dia morto da unicamp, no início da década de 90. Todas as aulas aconteciam de terça à quinta, com uma série de festas na quinta, nos diversos institutos. Quase todos os alunos, na quinta, oficialmente, iam às festas da unicamp, e muitas vezes nas quartas também, chegando de ressaca feia para a aula da quinta. Fora os bêbados de carteirinha, que evidentemente eram maioria absoluta, já que, além da cerveja vendida em todas as cantinas, de vez em quando rolava um garrafão de pinga que ia passando pelas mesas do bar. Os professores sempre bebiam junto com os alunos, tanto com o seu séquito, como com alunos desconhecidos, que por lá estivessem também, ou mesmo com aqueles que moravam no bar, como Ubaldo, Zedu... Falei do Baldo e do Zedu até ia esquecendo do dia, de manhãzinha fria e úmida de orvalho, o prof. Cavalcante me chamou no carro dele (tinha só o carro dele ainda no estacionamento do ifch, do lado da cantina, era 91 ou 92), um uno azul, que gerava piadas parmenideanas, para perguntar se tinha muita gente já no prédio (a aula era no segundo andar, numa sala grande com poucos alunos). Eu disse que não, que éramos os primeiros a chegar (algumas vezes eu chegava bem cedinho, pra curtir o amanhecer no campus, no bosque de eucaliptos da economia), que tava tudo bem, e ele mostrou os pés com sapatos trocados, um azul e o outro marrom. Disse que saíra de casa ainda escuro (morava em Vinhedo) e não quis acender a luz para não acordar sua esposa. Ri junto com ele, e fomos para a sala de aula. Houve ainda outra vez em que conversei a sós com ele.
Na Filosofia os caras marcavam horários alternativos (além do orlandi e do roberto romano, que disputavam as terças e quintas), o fausto castilho começava às 14 da sexta, e ia até os funcionários expulsarem ele e os alunos, no começo da noite.
Aliás, alguns desses professores defendiam que o ensino público da estaduais de são paulo não deveriam abrir cursos noturnos, mas não me lembro hoje quais. Seu argumento principal era que o ensino noturno iria necessariamente causar uma piora em relação ao ensino público que havia então, do final dos anos 80 até o início dos 90. Lembro-me muito claramente do Fausto Castilho defendendo, admiradíssimo, o Fernando Collor, no dia seguinte ao confisco das poupanças feito pela sua equipe econômica comandada por Zélia Cardoso de Mello. Foi o início do meu curso.
Fausto gravava sua aula em fita cassete, por ideia de seu grupo de alunos, dentre eles o Pardal. Sim, havia os grupos de alunos em torno de um professor. Na época, éramos quase seguidores de nossos mestres. Cada um tinha o seu, e respeitava muito o dos colegas. Havíamos uns, mais perdidos, que não tomamos no começo ou no curso inteiro, um professor como mestre, mas sim alguns colegas. Eu seguia o Pardal e o Lucas Angioni. Leandro Abel era violinista em Americana, teve formação religiosa liberal, e por isso sabia já muito bem o Latim, e fazia o Grego conosco. Cristiano Rezende eu conhecia do colégio, ele era um ou dois anos mais novo que eu, confessei já a ele que não consigo me lembrar dele lá na Escola Comunitária de Campinas, e ele explicou que era totalmente apagado no colégio, um dia só que teve uma viragem e aprendeu a falar o que pensava. Cristiano, depois, foi fazer o mestrado na USP, com Marilena Chauí, sobre Espinosa.
Houve sempre o boato, e que sempre pareceu ser mais que apenas boato, que Romano e Marilena eram namorados, na época de estudantes, e que ambos eram os orientandos mais queridos de Maria Sylvia de Carvalho Franco, a eminente autora da clássica tese sobre Homens Livres na Ordem Escravocrata e também professora da Filosofia da Unicamp em 90. Em algum momento da história, Romano e Maria Sylvia começaram a namorar, se casaram e continuavam indo juntos, de carro, de um bairro chique de são paulo, décadas depois, de onde moravam, para a universidade estadual de campinas, onde trabalhavam. Tinham aulas acho que nas quintas, de manhã (obrigatória, de 4 horas) e à tarde (eletiva / pós, de no mínimo 4 horas). Iam apenas uma vez por semana ao campus, mas utilizando carro próprio. Não creio que naquela época houvesse algo como tíquetes de combustível para ressarcir as viagens. Ele ganhava o mesmo que eu ganho hoje, uns 5 mil reais (fora o do governo). Mas isso faz 20 anos de inflação. Eles moravam talvez no Brooklin de SP, e nosotros todos estávamos na periferia campineira. E na periferia também de sistemas de poder, embora fôssemos todos de classe média ou média alta. Ainda assim, todos percebíamos uma aura naqueles professores que se perdeu talvez irremediavelmente, apesar dos esforços de nós todos, hoje.
Lembro-me de uma das pouquíssimas reuniões do departamento da Filosofia de que participei, silenciosamente, quando estava já na segunda metade do curso (que, para mim, durou do primeiro semestre de 1990 ao segundo semestre de 1996). A pauta era a contratação de um professor efetivo para o departamento. Havia dois candidatos: um do grupo de Filosofia (Política, Metafísica, História da Filosofia Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea) e o outro, da Lógica (Filosofia Analítica. Não me lembro como votou Arley Moreno nesse dia). A votação ia ser empate, 5 a 5, e o professor Benjamin pediu para alguém ir correndo (foi um professor, se bem me lembro, e não um de nós, que estávamos acompanhando o processo) chamar um professor que estava dando aula naquele momento (as reuniões aconteciam de vez em quando, às quartas à tarde. Francisco Benjamin de Souza Netto (com dois tt) foi meu orientador, no início do mestrado em filosofia, em 1997. O projeto era sobre Platão, a poesia em Platão, a censura aos poetas na República em Platão. Eu queria ler aqueles dois volumes, que haviam recebido a orientação recente do doutorado, mas não consegui avançar muito na leitura. É certamente uma das leituras mais claras deste problema na República, eu nem sabia direito quem eu era, quanto mais Homero. Ele me mandou ler o Íon, de Platão. Eu o li, lutando com o original grego, mas abandonei o curso.
As Bancas examinadoras constituíram alguns dos eventos acadêmicos mais educativos que houve na Academia, naquela época. Quando Hector Benoit, por exemplo, defendeu seu doutorado e foi acusado, na banca, de plágio por Maria Sylvia. Foi um dos ‘rachas’ profundos do Departamento. Não assisti às defesas de Hector nem de Benjamin, que ocorreram enquanto eu era graduando, embora eles fossem alguns dos mais respeitados professores de filosofia do brasil, e quase únicos então, sobreviventes da Ditadura Militar.
Fausto deu as boas-vindas a Collor, mas o correto era ser extremamente favorável ao PT. Praticamente todos defendiam publicamente o PT (apenas alguns sequelados como o giannotti da USP e outros defendiam Fernando Henrique, normalmente creio que mais por amizade pessoal e admiração, que necessariamente por ideologia.
Havia o Quartim, João Francisco Quartim de Moraes, autor de importantíssimos capítulos da história da esquerda armada no Brasil (ou algo assim), que ninguém da Filosofia lia. Uma vez, houve a história que Quartim teria dado tiros de revólver nos 4 pneus de um carro, que estava estacionado em cima da calçada, interrompendo o trâfego de pedestres, coisa que, na época (93, talvez), era muito comum. Muitos de nós éramos filhinhos-de-papai, que tínhamos o automóvel (eu não sabia dirigir, aprendi tarde) novinho para exibir nos gramados da Unicamp. Naquela época, foram cunhadas as expressões ‘mauricinho’ e ‘patricinha’, que não existiam quase no começo de 90, não na universidade, ainda mais se lembrados os remanescentes da década anterior.