
Lexicon - DicionárioTeológico Enciclopédico (vários autores)sou um epiqueísta!!
“Quando a educação se torna uma coisa essencialmente técnica, sobre técnicas de ensino-aprendizagem, técnicas de facilitação para os alunos, de tornar as aulas mais dinâmicas, mais agradáveis, mais prazerosas, a atitude do professor tenta ser o mais possível politicamente neutra. Mas sempre que o professor faz o discurso da neutralidade, da “cientificidade” da pedagogia, ele na verdade tenta neutralizar e se desligar das relações de poder da sociedade, o que é impossível.
Assistimos, então, a um interesse ímpar pelos métodos de ensino, pela tecnologia da educação, pelos instrumentos de avaliação, pela adequação curricular. [...] Um profundo tecnicismo caracteriza, então, a prática e as chamadas teorias pedagógicas.
Esses e outros equívocos presentes nos discursos e na prática pedagógica tendem a reduzir tudo a procedimentos, estratégias, opções na esfera dos conteúdos, dos métodos, das técnicas, das tecnologias, da gestão; limitando, empobrecendo e banalizando o sentido da educação, da escola, do saber, do ensinar e do aprender.
Com efeito, a grande ênfase nos métodos e nas técnicas não é de modo algum inocente, não decorre de um conhecimento supostamente objetivo, neutro e desinteressado, não é ‘natural’ e ‘racional’. Pelo contrário, é uma forma sutil de escamotear as relações concretamente existentes entre educação e classe social, educação e poder, deixando aparecer apenas os problemas metodológicos e técnico-administrativos.
A própria qualificação da força de trabalho, numa sociedade capitalista, não é de modo algum um processo meramente técnico, mas eminentemente social, visto consistir principalmente no preparo de uma mão-de-obra dócil e disciplinada.
É profundamente ingênua (e perigosa!) essa idéia de que o professor deve facilitar a aprendizagem ao máximo, fazendo dela uma diversão, uma brincadeira (e aqui entra toda a parafernália da tecnologia da educação, dos recursos audiovisuais), na qual o importante é apenas ‘aprender a aprender’. Ora, ninguém aprende a aprender sem um conteúdo, uma matéria-prima a ser transformada pela reflexão, isto é, sem um trabalho que produza a compreensão da realidade. A vulgarização da idéia de que não é o professor que ensina, mas o aluno que aprende, tem conduzido muitos educadores a uma irresponsabilidade, a um populismo ingênuo, encoberto por uma falsa defesa da liberdade e da criatividade do indivíduo e da igualdade entre professores e alunos.
O estudo da filosofia da educação às vezes é substituído pelo das teorias da educação. [...] A teoria da educação pouco incomoda o Estado, os professores e os pais e tende a ser bem-vinda [...] conferindo uma auréola de erudição.
A filosofia interroga e questiona a educação, as teorias e as práticas educativas, as políticas educacionais, a redução da educação a uma questão técnica a ser decidida pelos tecnoburocratas do estado, a compreensão instrumentalista da escola e a conseqüente submissão desta ao mundo empresarial, ao mercado, aos ideais de eficácia e produtividade.
Sendo a escola uma instituição da sociedade civil, nela se manifestam todos os conflitos, os antagonismos que constituem a existência desta. Ora, em nossa formação social encontramos duas classes fundamentais, cujos interesses se excluem radicalmente.
Temos de aproveitar a vantagem do fato do professor ser um operário pobre, mal-remunerado, um proletário, pois se o controle da educação é fundamental para a reprodução da dominação de classe — o assumir deste controle pelas classes subalternas representa certamente um avanço em sua luta política.
Uma das maiores contribuições que a escola pode dar à classe operária não é tanto “conscientizá-la”, como se ela não conhecesse a verdade libertadora por estar impregnada da ideologia, sendo nossa “missão” arrancá-la do plano da realidade imediata para elevá-la a seus reais interesses de classe. Essa concepção iluminista e autoritária, fundada na dicotomia saber / ignorância, consciência / inconsciência, supõe que a consciência crítica possa ser dada ou adquirida, possa vir de fora, esquecendo-se que ela se conquista no trabalho e na luta, e que a ideologia se encontra também internalizada no educador.
Somente o fortalecimento da sociedade civil, a organização coletiva, a luta política, serão capazes de transpor o território, ainda bastante limitado, embora importante, da crítica teórica. Um trabalho pedagógico que não conduza a uma organização mais efetiva da sociedade civil, em especial das classes subalternas, já comprometeu boa parte de seu sentido educativo e eficácia.”
(COÊLHO, Ildeu Moreira. “Filosofia e Educação”. In: PEIXOTO, Adão José (org.). Filosofia, Educação e Cidadania. Campinas-SP: Alínea, 2001. pp.19-70)
“Nós temos”, assim diz o guia ilustrado de Paris do ano de 1852, [oferecendo] uma visão completa da cidade, do Sena e seus arrabaldes, “repetidamente pensado nas arcadas como bulevares interiores, assim como os que se abrem através deles. Estas passagens, uma nova descoberta do luxo industrial, são corredores cobertos de vidro, calçados em mármore ao longo de blocos inteiros de edifícios, cujos donos se juntaram para engajar-se nessa aventura. Ao longo de ambos os lados desta calçada, que recebem sua luz de cima, estão as mais elegantes lojas de mercadorias, para que tal arcada seja uma cidade, um mundo e miniatura.”
Walter Benjamin comenta: ‘Esta citação é o locus classicus para a representação das arcadas [Passagen]’, que emprestou o nome ao seu mais ousado projeto intelectual. O Passagen-Werk [Trabalho das Passagens] seria uma ‘filosofia materialista da história’, construído com a ‘maior concretude’, como passagens das quais o próprio material histórico, resíduos anacrônicos daqueles edifícios do século XIX, tecnologias e mercadorias que foram precursoras e sua própria era. Como proto-fenônemos da modernidade, eles ofereceriam o material necessário para uma interpretação das mais recentes configurações da história.
As Passagens de Paris, construídas no início do século XIX, eram a origem da arcada, ou seja, da moderna galeria comercial. Certamente os mais remotos centros comerciais originários pareceriam locais lamentavelmente mundanos para inspiração filosófica. Mas era precisamente a intenção de Benjamin fazer a ponte entre a experiência cotidiana e as preocupações acadêmicas tradicionais, para alcançar, na realidade, aquela hermenêutica do sujeito profano que Heidegger somente pretendia.
O objetivo de Benjamin era levar tão a sério o materialismo que os próprios fenômenos históricos chegariam a falar. O projeto era testar o “quão ‘concreto’ se pode estar em conexão com a história da filosofia”. Espartilhos, espanadores de penas, pentes verdes e vermelhos, velhas fotografias, réplicas de suvenir da Vênus de Milo, botões de gola para camisas há muito descartadas, estes históricos e danificados sobreviventes da alvorada da cultura industrial, que aparecem reunidos nas moribundas Passagens ou Arcadas, como ‘um mundo de afinidades secretas’ eram as idéias filosóficas, como uma constelação de referentes históricos concretos. Mais ainda, como ‘dinamite político’ tais produtos datados da cultura de massa ofereceriam uma educação marxista-revolucionária para os sujeitos históricos da geração do próprio Benjamin, então vítimas recentes dos efeitos mais soporíferos da cultura de massa. ‘Nunca’, escreveu Benjamin a Gershom Scholem nos estágios iniciais do projeto ‘escrevi com tanto risco de fracasso’. ‘Ninguém poderá dizer que facilitei as coisas para mim’.
O ‘projeto’ das Passagens (como Benjamin se referia mais comumente ao Passagen-Werk) foi originalmente concebido como um ensaio de cinqüenta páginas. Mas ‘a cara cada vez mais desconcertante quanto mais intrusiva’ do projeto, que ‘uivando como uma pequena besta em minhas noites quando eu não a tenha deixado beber das fontes mais remotas durante o dia’, não abandonava seu autor tão facilmente. Para trazê-lo à luz do dia – e ‘para além de toda uma proximidade ostensiva com o movimento surrealista que podia ser fatal para mim’ – Benjamin continua a ampliar seu perímetro e aprofundar suas bases, tanto espacial como temporalmente. Em última instância, toda Paris para ele convergia, das alturas da Torre Eiffel ao mundo subterrâneo das catacumbas e metrôs, e sua pesquisa durava mais do que um século nos detalhes mais minuciosos da cidade.
Benjamin começou o Passagen-Werk em 1927. Não obstante as interrupções, ele trabalhou intensamente sobre o projeto durante treze anos. Ainda estava inacabado em 1940, quando, na tentativa fracassada de fuga para a França, Benjamin se suicida. Mas, das cinqüenta páginas originalmente planejadas para o ensaio, houve uma ampliação do conjunto do material que, quando publicado pela primeira vez em 1982, tinha mais de mil páginas. Elas consistem, na sua maioria, em fragmentos de dados históricos, respingados de fontes do século XIX e XX, que Benjamin encontrou na Staatsbibliotek de Berlim e na Bibliotéque Nationale de Paris, por ele organizadas cronologicamente em trinta e seis arquivos, ou Konvoluts, cada um encabeçado por uma palavra ou frase-chave. Esses fragmentos, embutidos ao comentário de Benjamin, compreendem mais de 900 páginas. Estão organizados tematicamente de maneira flexível. Para decifrar o seu significado, precisamos nos apoiar em uma série de notas (1927-1929; 1934-1935) que nos proporcionam evidência inestimável, ainda que insuficiente, quanto à concepção geral que dirigia a pesquisa de Benjamin, assim como aos dois ‘exposés’ do projeto das Passagens (1935 e 1939) que descrevem brevemente os conteúdos dos capítulos planejados.
(BUCK-MORSS, Susan. Dialética do Olhar: Walter Benjamin e o projeto das Passagens. Tradução de Ana Luiza Andrade. Revisão técnica de David Lopes da Silva. Belo Horizonte: Editora UFMG; Chapecé-SC: Editora Universitária Argos, 2002, pp.25-28)

