
ufal - arapiraca
sábado, 14 hs
"Observamos de fato que, quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta da verdadeira satisfação: resulta daí que em muitas pessoas, sobretudo nas mais experimentadas no uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de o confessar, surja um certo grau de misologia, quer dizer, de ódio à razão. E isso porque, uma vez feito o balanço de todas as vantagens por elas extraídas, e não me refiro à invenção de todas as artes do luxo vulgar, mas ainda das ciências (que a elas parecem, ao final, serem também um luxo do entendimento), descobrem, contudo, que mais se sobrecarregaram de fadigas do que ganharam em felicidade e que, por isso, finalmente mais invejam do que desprezam os homens de condição inferior que estão mais próximos do instinto natural e não permitem à razão grande influência sobre o que fazem ou deixam de fazer."
(KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Primeira Seção (Transição do Conhecimento Moral da Razão Comum para o Conhecimento Filosófico))
Pedófilos, celibatários e infalíveis
Em 2002, graças a uma série de artigos do "Boston Globe", estourou, nos EUA, o escândalo dos abusos sexuais de crianças por padres católicos. Desde então, uma onda de denúncias varre a Igreja Católica no mundo inteiro.Última revelação, no "New York Times" da quinta passada: nos anos 1990, quando ele comandava a Congregação da Doutrina e da Fé, o atual papa, Bento 16, suspendeu o julgamento de um padre americano, acusado de molestar 200 meninos surdos, de cujos espíritos e almas, em princípio, ele devia cuidar.
Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral. Escândalo, mas sem surpresa alguma: em geral, o projeto dominante de qualquer instituição é o de durar para sempre.
Mas trégua: não escrevo esta coluna para me indignar. Prefiro contribuir ao debate do momento com duas observações, sugeridas pela psicopatologia e pela clínica.
1) Da conversa de botequim até o pronunciamento de um teólogo que admiro (Hans Küng, na Folha de 21 de março), os abusos sexuais de crianças por padres católicos reavivam as críticas contra o celibato dos padres.
Cuidado, não sou um defensor do celibato dos padres. Ao contrário, parece-me que a experiência de amar e conviver melhoraria a qualidade dos ministros da igreja, porque a tarefa de ser consorte ensina uma humildade que é difícil alcançar na solidão, seja ela orgulhosa e casta ou, então, envergonhada e masturbatória. No entanto, acho bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia.
Essa ideia surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.
É raro que eu me expresse de maneira tão direta, mas é preciso dizer: essa ideia é uma estupidez. Fantasias e orientações sexuais nunca são o efeito de acumulação de energia sexual insatisfeita. Um pedófilo poderá, eventualmente, desejar uma mulher e casar com ela, mas o fato de cumprir, mesmo com afinco, o dever conjugal não o livrará das fantasias pedofílicas. Teremos, simplesmente, pedófilos casados, em vez de solteiros.
Não vejo o que ganharíamos com isso, mas vejo, isso sim, na própria proposta, um desprezo inacreditável pelas mulheres que se casariam para servir de válvulas de escape para a "depravação" dos seus maridos. Ninguém merece.
A quem propõe o casamento como solução para a pedofilia dos padres, uma sugestão: proponha um programa compulsório de transa diária com a boneca inflável do Geraldão. Será tão ineficiente quanto o casamento, mas, ao menos, as mulheres serão poupadas.
2) Não é exato dizer que pedófilo é quem gosta de "carne" jovem. Pois o que importa ao pedófilo, o que é crucial na fantasia, é induzir a vítima a aceitar algo que ela desconhece e não entende. A jovem idade da vítima é sobretudo garantia de sua inocência e ignorância, ou seja, do fato de que a vítima não entenderá o que lhe será feito.
Por exemplo, um dos padres denunciados em Boston, em 2002, explicou que seu prazer consistia não tanto em ser satisfeito oralmente por um menino quanto em convencer o menino de que essa era uma forma especial de santa comunhão, que ele, o padre, ensinava e administrava.
Em suma, o pedófilo encontra seu prazer iniciando os ignaros e exercendo sobre eles um poder pedagógico absoluto. Agora, considere o jeito como a Igreja Católica tratou seu rebanho, até ser forçada a reconhecer a culpa de alguns de seus ministros. Considere a prática recorrente de camuflar decisões administrativas em dogmas divinos, considere a repressão teológica em lugar do diálogo e ainda considere a doutrina da pretensa infalibilidade do pontífice. Pois bem, aparentemente, os padres pedófilos são pequena minoria, mas a igreja como instituição trata mesmo seus fiéis como criancinhas.
(http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/04/pedofilos-celibatarios-e-infaliveis.html)"Tá sentindo um cheiro estranho? É a podridão do mundo", diz um homem. Baixio das bestas, novo filme de Claudio Assis que estreia nesta sexta-feira [de maio de 2007], é mais uma viagem no universo particular de seu autor. Uma jornada de uma hora e vinte pela miséria, decadência e podridão humana. Decididamente, não-indicado para pessoas de estômagos sensíveis, cabeças fechadas e obcecadas pelo bom gosto.
Assim como em seu primeiro longa-metragem, Amarelo manga (2003), e no curta Texas hotel (1999), os temas com os quais o diretor parece confortável são sempre desconfortáveis. E, talvez, por isso mesmo, mereçam atenção e reflexão. [...]
Baixio das bestas não enrola nem amacia [...] em Baixio das bestas não há vaselina. Até por isso, Caio Blat e Matheus Nachtergaele gritam numa orgia: "- Cadê a manteiga? Hoje eu quero cu!". Masturbação, estupro, espancamento de mulheres, exploração de menores, pedofilia, sodomia, depilação íntima feminina in loco (ou em foco, ou em close), um pouquinho de sexo explícito, pênis na tela, vaginas na tela, está tudo lá. Por trás, um estudo cru e cruel sobre a exploração humana, sobretudo da mulher.
De um lado, a menina explorada pelo avô - que também é seu pai -, sendo exposta por ele, nua, para caminhoneiros. Um puteiro frequentado por violentos agroboys é o outro lado da moeda responsável pela carga dramática do filme. Dentro desses dois núcleos é onde fundamentalmente o importante acontece.
O longa, além da(s) história(s) forte(s), tem um desempenho espetacular de seu elenco. Numa obra com Caio Blat, Matheus Nachtergaele e Marcélia Cartaxo, a estreante Mariah Teixeira, Dira Paes e Fernando Teixeira dão um show, sem desmerecer aqueles. Mariah é impressionante. Sua atuação é pontuada por silêncios, olhares, gestos. De longe, o que há de melhor no filme. E tem ainda Hermila Guedes, de O céu de Suely, cujos personagens - e os dois filmes - talvez estejam mais próximos do que se imagina. Apesar de extremamente bem filmado, há excessos, sim, como em toda a obra do autor.
Baixio das bestas irá desagradar - e incomodar, enojar - muita gente, mas também irá acertar em cheio o público de Amarelo manga e Cronicamente inviável (2000, de Sérgio Bianchi). Há momentos em que o filme parece querer ser um tapa na cara da classe média brasileira, um basta no (movimento) "Basta!" ("- A pobreza vai socializar o mundo!", - grita o personagem de Matheus). Há outros em que a sensação de gratuidade e do choque pelo choque incomodam tolamente. [...]
Outra face comprometedora da cinematografia tupiniquim, a folclórica figura do bêbado, entretanto, protagoniza um plano-seqüência com o avô digno de nota, por sua competência, eficiência e força.
Baixio das bestas é um filme contundente, tenso, violento e - como não podia deixar de ser - polêmico. É esplendidamente fotografado em CinemaScope - como em Amarelo manga -, com muita câmera na mão, ótimos planos-sequência e um desempenho visceral de seu elenco. É uma obra importante dentro da (pouca) variedade do cinema brasileiro, e mais um "pé na porta" de fora do eixo Rio-São Paulo, que já nos brindou com Cinema, aspirinas e urubus e Cidade baixa.
"- Sabe o que é o melhor do cinema? É que no cinema tu pode fazer o que tu quer" - diz o personagem de Matheus. E é isso que Claudio Assis faz. O que quer. Aparentemente, sua intenção de chocar é muito clara. O que não quer dizer que, através de um olhar mais atento, não se perceba quão importantes são as denúncias que faz. Suas pertinências são mais que relevantes. Ao preferir não tapar o sol com a peneira, ele joga um foco de luz na parte "mundo cão" de nosso mundo. De nosso país. Pode-se não gostar de seu estilo cinematográfico. No mundo real, entretanto, dar as costas não é uma opção.
(LEVI, Daniel. “Baixio das Bestas” é uma jornada pela miséria humana. Texto disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2007/05/09/295681173.asp)
BAIXIO DAS BESTAS
quarta-feira, vinte de outubro, duas da tarde
Cine-Debate no Congresso Acadêmico – UFAL Arapiraca
“é bom lembrar os candidatos que Deus não vota” (tas)
“é, porque ele tem mais de 75 anos” (marco luque)
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