
http://www.clickarapiraca.com.br/
YAUARETÊ
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Senhora do fogo
Maria Maria
onça verdadeira me ensina a ser realmente o que sou
põe a sua língua na minha ferida, vem contar o que eu fui
me mostra meu mundo
quero ser jaguaretê
Meu parente, minha gente, cadê a família onde eu nasci
cadê meu começo, cadê meu destino e fim?
para quê eu estou por aqui?
Senhora da noite
senhora da vastidão
ouvir pegadas e pegar
seguir a sina de sangrar pra se alimentar
tem de guerrear, lutar, matar para sobreviver
pois assim é a vida
Quem vem lá? É onça que já vem comer
quero ser a onça, meu jaguaretê
quero onçar aqui no meu terreiro
vou onçar sertão e mundo inteiro
já está na hora da onça beber o seu
vou dançar com a lua lá no céu
*
do cd que minha mãe me deu de presente, na defesa da tese: yauaretê
O SILÊNCIO DAS SEREIAS
Franz Kafka
Comprovação de que mesmo meios insuficientes, e até infantis, podem conduzir à salvação.
A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo. O canto das sereias impregnava tudo – que dirá um punhado de cera –, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais do que correntes e mastro. Nisso, porém, Ulisses nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias.
As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. É certo que nunca aconteceu, mas seria talvez concebível que alguém tivesse se salvado de seu canto; de seu silêncio, jamais. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.
E, de fato, essas poderosas cantoras não cantaram quando Ulisses chegou, seja porque acreditassem que só o silêncio poderia com tal opositor, seja porque a visão da bem-aventurança no rosto de Ulisses – que não pensava senão em cera e correntes – as tenha feito esquecer todo o canto.
Ulisses, contudo, e por assim dizer, não lhes ouviu o silêncio; acreditou que estivessem cantando e que somente ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, observou primeiro as curvas de seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas, a boca semi-aberta; mas acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias soando inaudíveis ao seu redor. Logo, porém, tudo deslizou por seu olhar perdido na distância; as sereias literalmente desapareceram, e, justo quando estava mais próximo delas, ele já nem mais sabia de sua existência.
Elas, por sua vez, mais belas do que nunca, esticavam-se, giravam o corpo, deixavam os cabelos horripilantes soprar livres ao vento, soltando as garras na rocha; não queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então; mas permaneceram: Ulisses, no entanto, escapou-lhes.
Dessa história, porém, transmitiu-se ainda um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar em seu íntimo; embora isto já não seja compreensível ao intelecto humano, talvez ele tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo então, de certo modo, oferecido a elas e aos deuses toda a simulação acima tão-somente como um escudo.
Franz Kafka, 23 de outubro de 1917
"Toda tentativa para quebrar a sujeição à dominação da natureza, ‘porque a natureza está quebrada’, penetra ‘cada vez mais profundamente na escravização da natureza’.
O amor comporta o abandono do amante ao amado e, conseqüentemente, um momento de não domínio por parte do sujeito. Contrapõe-se à lógica instrumental que exige que cada um tenha em suas ações atitude racional e calculada em relação à planificação das vantagens a serem conquistadas [...] A humanidade torna o homem triste, e a necessidade de amor, a necessidade do outro como única garantia de não-agressão, converte-se em melancolia."
(OLGÁRIA MATOS. “A melancolia de Ulisses: a dialética do Iluminismo e o canto das sereias”. In: CARDOSO, Sérgio (et al.). Os sentidos da paixão. SP: Companhia das Letras, 1987.)